sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Aquele homem deitado

Parecia um menino. E parecia também que nunca antes houvera dormido. Dormia como morrido.

Eu passava por ali, pensativa, como sempre. E ele lá. Eu o vi de longe e quase atravessei a rua. Não. Eu não atravessei. Teria mesmo que vê-lo, de perto.

E o vi.

Fiquei tentando imaginar que tipo de coisas sonhava. Se sonhava... Sim, sonhava. Estava tão descansadamente estirado que - acho - puder ver seus sonhos, e ler sua alma. (Ou seria a minha própria?)

Estava ele só? Não. Naquele momento ele não estava só. Naquele momento eu o amava.

Ele devia estar em uma praia, estendido, mais vivo que nunca. Exposto ao sol e às lamúrias do mar. Estaria ele com calor sobre a areia dos meus desejos?

Não. Fazia frio naquela calçada gelada.

Conformei-me com a realidade e com a provável falta de sonhos daquele homem e fui embora.

Antes que me deitasse ao seu lado e dormisse o mesmo sonho...

Por um momento ele era eu...

E fui embora, para nunca mais voltar.

Quando por ali passasse de novo, não veria mais do que dejetos fecais - caninos ou humanos.

Talvez o próprio homem.

Eu.

(1998)

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