Parecia um menino. E parecia também que nunca antes houvera dormido. Dormia como morrido.
Eu passava por ali, pensativa, como sempre. E ele lá. Eu o vi de longe e quase atravessei a rua. Não. Eu não atravessei. Teria mesmo que vê-lo, de perto.
E o vi.
Fiquei tentando imaginar que tipo de coisas sonhava. Se sonhava... Sim, sonhava. Estava tão descansadamente estirado que - acho - puder ver seus sonhos, e ler sua alma. (Ou seria a minha própria?)
Estava ele só? Não. Naquele momento ele não estava só. Naquele momento eu o amava.
Ele devia estar em uma praia, estendido, mais vivo que nunca. Exposto ao sol e às lamúrias do mar. Estaria ele com calor sobre a areia dos meus desejos?
Não. Fazia frio naquela calçada gelada.
Conformei-me com a realidade e com a provável falta de sonhos daquele homem e fui embora.
Antes que me deitasse ao seu lado e dormisse o mesmo sonho...
Por um momento ele era eu...
E fui embora, para nunca mais voltar.
Quando por ali passasse de novo, não veria mais do que dejetos fecais - caninos ou humanos.
Talvez o próprio homem.
Eu.
(1998)
Nenhum comentário:
Postar um comentário